Cantar, dançar e representar ao mesmo tempo é o que tenho feito nos últimos dias. Correria danada pra deixar tudo em ordem. Fechar casa e contas por dois meses demanda trabalho. Porém, não me sinto cansada. Quando há motivação, contentamento, metade está pronto. Repito sempre esse mantra em ocasiões semelhantes para não estressar. Desse jeito não desanimo e vou tocando a vida conforme ela se apresenta.
Não sei pra que juntar tanta tralha? Já me livrei de um monte, mas... a casa continua apinhada. São móveis, utensílios, papéis de todos os gêneros, livros, elétros, pano, troço que não acaba mais. Depois que a vida mudou quase tudo perdeu o sentido. Pra que tanta louça, talheres, toalhas e copos se não dou mais festas? Pra que tanta roupa, sapatos e acessórios se não frequento os lugares de antes? Só pra lembrar e dar trabalho, pois. Juntar, amealhar, nunca foi o meu forte. Quando compro uma roupa dou outra do armário. Tenho como costume dar o que já cumpriu sua função. Contudo, não consigo me livrar das coisas que contam história. Talvez, por ser assim, fui escolhida para ser a guardiã desse acervo afetivo.
Tudo começou quando minha mãe morreu e a nossa casa de origem foi desfeita. Nesse tempo eu já morava no meu canto e Manoella era um bebê. Ante à desarrumação da família com a partida inesperada de mamãe, a gente resolveu mudar o cenário indo morar todo mundo junto numa nova casa. Com meu pai e meus irmãos veio tudo da antiga morada. Num estalar de dedos lá estava eu administrando uma família. Fizemos uma casa linda para alegria voltar, e ela voltou.
Todos os sábados a gente armava a mesa de pocker embaixo da mangueira para papai receber os amigos. Meu irmão, sempre animado, trazia a moçada da faculdade para tocar violão depois da praia. Minha irmã, ainda uma menina, enchia o quintal com outras meninas para pular corda, jogar volei e fazer piruetas em um tatame improvisado (ela era exímia ginasta, dava salto mortal e pulava estrela). No meio de tudo os brinquedos de Manu denunciavam que ali também morava uma criança de colo. Passamos quase dois anos dividindo café da manhã, almoço e ceia. Foi o tempo da adaptação à ausência de mamãe. Foi ela quem nos ensinou fazer da tragédia uma comédia. Nas horas tristes lembrávamos do seu humor inteligente para o riso substituir as lágrimas. Meu pai casou novamente e meus irmãos seguiram os seus destinos.
Nova vida para todos, menos pra mim. Nessa altura, já acostumada com o alvoroço, senti falta quando eles se foram. Ninguém levou nada. Até as roupas de cama, mesa e banho deixaram comigo. Logo depois, aconteceu a maior cheia desta cidade, e muita coisa foi embora com as águas. Grávida da segunda filha resolvi voltar a morar na nossa casa de origem. Fiz uma reforma e a danadinha ficou um brinco. Germana nasceu lá. Passei dois anos até mudar para aquele apartamento perto do céu.
Nas Graças, nasceu João. Não vou contar da temporada no paraíso para não correr o risco de sair daqui voando até a outra margem do rio em busca do que não mais existe. Mesmo assim, não posso deixar passar em brancas nuvens o ano do incêndio. Tenho certeza de que quem morava ou ainda mora nas cercanias, jamais esquecerá a noite de 11 de agosto de 1981, que dirá eu!
Nessa data se comemora a fundação dos cursos jurídicos no Brasil. Feriado para quem exerce função pública ou privada na justiça. Aproveitando a folga, fui ao dentista. Mal botei os pés em casa, esta pegou fogo. Lembro da roupa que usava e da agonia que senti quando o bombeiro me perguntou quantos filhos eu tinha e onde eles estavam naquele momento. Depressa fui em busca dos três. Para meu desespero só encontrei os dois menores. Surtei de vez. Apagou da mente que a maior estava na escola, ansiosa, ante a minha demora. Depois de vê-la pela mão de um vizinho, que fez a caridade de ir buscá-la, dei de ombros para o estrago feito pelas chamas.
Dessa vez, literalmente, não sobrou pedra sobre pedra. Dá pra imaginar o salseiro nas imediações. A barulheira era grande. Bombeiros, polícia e até o pessoal do rádio e TV estava lá. Descobri naquela noite que gente é o bem mais precioso que há no mundo. Pouco importava saber o que sobrara da trela memorável dos meninos (por um descuido meu os dois menores resolveram "fumar" um cigarro jogando os palitos de fósforos, ainda acesos, em um tapete de coxim). Ali também descobri que sou uma mulher de sorte.
Mesmo sem lenço nem documento( queimou tudo, da carteira de identidade à lata de leite Moça, que virou doce sem ir à panela) levantei as mãos para os céus em agradecimento por todos estarem sãos e salvos. Ninguém sofreu um arranhão sequer. Nem os meninos nem os vizinhos. Providências tomadas por quem de direito, nos vimos apenas com a roupa do corpo. Eu, ele e as crianças. Passamos quase seis meses na casa das minhas tias. Refizemos tudo e voltamos para lá no natal do mesmo ano. Daí pra frente vi que tudo é passageiro e que de nada adianta chorar as pitangas nessas horas. Deixar a poeira assentar é a saída. Hoje arrumo malas, caixas e gavetas, pensando na transitoriedade das coisas da vida, certa de que “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.
Para Geórgia, com alegria!






