quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Resumo da Ópera



Cantar, dançar e representar ao mesmo tempo é o que tenho feito nos últimos dias. Correria danada pra deixar tudo em ordem. Fechar casa e contas por dois meses demanda trabalho. Porém, não me sinto cansada. Quando há motivação, contentamento, metade está pronto. Repito sempre esse mantra em ocasiões semelhantes para não estressar. Desse jeito não desanimo e vou tocando a vida conforme ela se apresenta.

Não sei  pra que juntar tanta tralha? Já me livrei de um monte, mas... a casa continua apinhada. São móveis, utensílios, papéis de todos os gêneros, livros, elétros, pano, troço que não acaba mais. Depois que a vida mudou quase tudo perdeu o sentido. Pra que tanta louça, talheres, toalhas e copos se não dou mais festas? Pra que tanta roupa, sapatos e acessórios se não frequento os lugares de antes? Só pra lembrar e dar trabalho, pois. Juntar, amealhar, nunca foi o meu forte. Quando compro uma roupa dou outra do armário. Tenho como costume dar o que já cumpriu sua função. Contudo, não consigo me livrar das coisas que contam história. Talvez, por ser assim, fui escolhida para ser a guardiã desse acervo afetivo.

Tudo começou quando minha mãe morreu e a nossa casa de origem foi desfeita. Nesse tempo eu já morava no meu canto e Manoella era um bebê. Ante à desarrumação da família com a partida inesperada de mamãe, a gente resolveu mudar o cenário indo morar todo mundo junto numa nova casa. Com meu pai e meus irmãos veio tudo da antiga morada. Num estalar de dedos lá estava eu administrando uma família. Fizemos uma casa linda para alegria voltar, e ela voltou.

Todos os sábados a gente armava a mesa de pocker embaixo da mangueira para papai receber os amigos. Meu irmão, sempre animado, trazia a moçada da faculdade para tocar violão depois da praia. Minha irmã, ainda uma menina, enchia o quintal com outras meninas para pular corda, jogar volei e fazer piruetas em um tatame improvisado (ela era exímia ginasta, dava salto mortal e pulava estrela). No meio de tudo os brinquedos de Manu denunciavam que ali também morava uma criança de colo. Passamos quase dois anos dividindo café da manhã, almoço e ceia. Foi o tempo da adaptação à ausência de mamãe. Foi ela quem nos ensinou fazer da tragédia uma comédia. Nas horas tristes lembrávamos do seu humor inteligente para o riso substituir as lágrimas. Meu pai casou novamente e meus irmãos seguiram os seus destinos.

Nova vida para todos, menos pra mim. Nessa altura, já acostumada com o alvoroço, senti falta quando eles se foram. Ninguém levou nada. Até as roupas de cama, mesa e banho deixaram comigo. Logo depois, aconteceu a maior cheia desta cidade, e muita coisa foi embora com as águas. Grávida da segunda filha resolvi voltar a morar na nossa casa de origem. Fiz uma reforma e a danadinha ficou um brinco. Germana nasceu lá. Passei dois anos até mudar para aquele apartamento perto do céu.

Nas Graças, nasceu João. Não vou contar da temporada no paraíso para não correr o risco de sair daqui voando até a outra margem do rio em busca do que não mais existe. Mesmo assim, não posso deixar passar em brancas nuvens o ano do incêndio. Tenho certeza de que quem morava ou ainda mora nas cercanias, jamais esquecerá a noite de 11 de agosto de 1981, que dirá eu!

Nessa data se comemora a fundação dos cursos jurídicos no Brasil. Feriado para quem exerce função pública ou privada na justiça. Aproveitando a folga, fui ao dentista. Mal botei os pés em casa, esta pegou fogo. Lembro da roupa que usava e da agonia que senti quando o bombeiro me perguntou quantos filhos eu tinha e onde eles estavam naquele momento. Depressa fui em busca dos três. Para meu desespero só encontrei os dois menores. Surtei de vez. Apagou da mente que a maior estava na escola, ansiosa, ante a minha demora. Depois de vê-la pela mão de um vizinho, que fez a caridade de ir buscá-la, dei de ombros para o estrago feito pelas chamas.

Dessa vez, literalmente, não sobrou pedra sobre pedra. Dá pra imaginar o salseiro nas imediações. A barulheira era grande. Bombeiros, polícia e até o pessoal do rádio e TV estava lá. Descobri naquela noite que gente é o bem mais precioso que há no mundo. Pouco importava saber o que sobrara da trela memorável dos meninos (por um descuido meu os dois menores resolveram "fumar" um cigarro jogando os palitos de fósforos, ainda acesos, em um tapete de coxim). Ali também descobri que sou uma mulher de sorte.

Mesmo sem lenço nem documento( queimou tudo, da carteira de identidade à lata de leite Moça, que virou doce sem ir à panela) levantei as mãos para os céus em agradecimento por todos estarem sãos e salvos. Ninguém sofreu um arranhão sequer. Nem os meninos nem os vizinhos. Providências tomadas por quem de direito, nos vimos apenas com a roupa do corpo. Eu, ele e as crianças. Passamos quase seis meses na casa das minhas tias. Refizemos tudo e voltamos para lá no natal do mesmo ano. Daí pra frente vi que tudo é passageiro e que de nada adianta chorar as pitangas nessas horas. Deixar a poeira assentar é a saída. Hoje arrumo malas, caixas e gavetas, pensando na transitoriedade das coisas da vida, certa de que “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.


Para Geórgia, com alegria!



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Calado é um Poeta




Nenhuma dúvida quanto à liberdade de expressão. A gente pode e deve dizer o que pensa, opinar, criticar e até discordar.Vivemos numa democracia, evidentemente. Agora, tem que sustentar o pescoço e assumir o que diz. Esse negócio de morde e assopra não é comigo. Se não tem raça para segurar a onda, feche o bico.

Toda vez é a mesma lenga lenga. O moço diz o que quer sobre quem bem quer pra depois mandar cartinhas desaforadas, dando piti, chorando o leite derramado. Sempre foi assim. Lembro de uma vez em que ele ficou puto por conta de um comentário pouco elogioso sobre a sua pessoa no NY TIMES. Esbravejou contra a jornalista americana no programa de Jô. Eu vi.

O rapaz sossegado, manso no cantar, irrepreensível poeta, virou uma criatura escandalosa, histérica, depois que a prata cobriu os caracóis do seu cabelo. Do mesmo jeito, agora, depois da entrevista no Estadão (onde disse o que bem quis dizer), solta os cachorros por conta da repercussão desfavorável da sua fala.

Não posso desmerecer o poeta, o intérprete maravilho, porém, isso não o qualifica para se achar acima do bem e do mal. Sair por aí destilando preconceito pra tudo quanto é lado, é o que ele tem feito ultimamente:“Marina é Lula e Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro”.

Essa postura não combina com o artista. Desde que virou produto, perdeu o encanto. Infelizmente! Todo mundo sabe que ele bajulou o “home” na esperança de ser Ministro da Cultura em substituição a Gil. Não vingou. Desde então ficou zangado. Em quase todas as ocasiões em que se apresenta, não perde a oportunidade para desqualificá-lo. Depois, quando vê que pisou na bola; que o povo não gostou, faz beicinho.

Caetano se julga o gênio da raça, o supra-sumo da cultura mestiça brasileira, o sol da Tropicália, o sabe-tudo que, de tão sabedor, pode desprezar os incultos da pátria. Blasé por desejo divino e necessidade. O poeta se julga mais poeta porque inventa coisas enigmáticas que o povo não compreende? Qual seria, então, o conceito caetanista de analfabetismo? E o que seria "saber falar" para quem se lixou aos montes para a regra, tão afeito à subversão das formalidades da língua?

Talvez o que incomode Caetano seja justamente a inteligência de Lula, sem verniz, sem laços, fitas e rimas. O pernambucano comunica-se, transmite a mensagem e, mais que isso, faz de sua locução uma poderosa arma de transformação. Lula, para completar, é autêntico.

Talvez "cafona" seja a palavra mais cafona da língua. Perceba-se: somente cafonas e afetados a utilizam. Como diria um grande amigo, se vivo fosse: "Ah, faça-me o favor!" Esse negócio de dizer que Lula é analfabeto, rude e cafona já perdeu a graça, mano Caetano. Conta outra pra tudo voltar a ficar *Odara, vai!


“Lula chega à hierarquia máxima do teatro, a que corresponde ao papa no catolicismo: o palhaço. Tem a extrema sabedoria de saber rir de si mesmo. Lula é um escândalo permanente para a mente moralista do rebanho. Um cultivador da vida, muito sabido, esperto. Não é à toa que Obama o considera o político mais popular do mundo. O Brasil é hoje um país de poesia de exportação como sonhava Oswald de Andrade, que no Pau Brasil, o livro mais sofisticado, sem igual brazyleiro canta:

Vício na fala

Pra dizerem milho dizem mio
Pra melhor, dizem mió
Para telha, dizem teia
Para telhado, dizem teiado
E vão fazendo telhado."

(Zé Celso, Ator e Diretor de Teatro)
*ODARA
Origem:HINDU
Significado:PAZ, TRANQUILIDADE.


Para Guilherme, um apaixonado pela mana do moço, a discreta Bethânia!











quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Do maiô ao mantô



E lá vou eu, novamente, atravessar o Atlântico. Mana, Chico, José e Mira, também vão. Pela primeira vez, Tom e Felipa vão estar juntos ao primo José (quando eles partiram José tinha apenas dez dias de nascido). Já estou imaginando a árvore de Natal que vou armar para os três. Daqui pra lá não consigo pensar em outra coisa. Já comecei a comprar os mimos. Na sacola já estão as asas de borboleta, a coroa de princesa e um vestido para Felipa. Para Tom, uma camiseta de mangas compridas com uma nave espacial na frente e um livro. Até o dia 18 de dezembro a mala vai estar sortida de roupinhas, brinquedos, açúcar e afeto. 

Por enquanto, caminho e fecho a boca para chegar elegante. O frio vai ser de matar. Preciso entrar nos casacos sem parecer uma Mamãe Noel Tropical. Então, a regra é comer pouco e andar muito. Já encomendei à Manu o figurino da temporada. Adoro sobrepor roupas. Nada como um mantô e uma pashimina pra gente se sentir a dona do pedaço. É email pra lá e pra cá todos os dias. Se eu pudesse e se o meu dinheiro desse, levaria tudo que eles gostam e muito mais. Mesmo que a imigração confisque, o bolo de rolo, o de noiva e o queijo do Reino vão seguir a viagem comigo. Disso não abro mão desde o tempo em que ela morava em Londres. Natal sem esses agrados não tem graça. Afinal, a gente se junta mesmo é para se deliciar com esses sabores de infância seja lá ou aqui. Todos os anos faço uma mesa de Natal igual a da casa da minha avó Juliana. Pastéis de festa açucarados e queijo do Reino não podem faltar, pois!

Nunca imaginei comemorar meus sessenta anos fora de casa. Aniversário pra mim só na nossa sala, com louça, copos e talheres do nosso armário.  Para os mais chegados, claro. Não gosto de festão em buffet e muito menos em salão de prédio. Acho impessoal, sem charme. No item “comemoração” sou chata, reconheço. Se é para fazer festa grande, use a imaginação e escolha lugares que se identificam com você. Dou um panetone a quem lembrar de alguma festa interessante nesses lugares envidraçados. Para mim são todas iguais. Do cardápio à música. Muita letra para pouco samba, sempre.

Mais uma vez, posso dizer que o mundo girou para me fazer feliz. Por incrível que pareça, depois de tudo, me sinto muito mais inteira de que quando eu era de fato. Nada me falta. Nem mesmo saúde, como muitos pensam. Tenho disposição para dar e emprestar. Desde o malfadado câncer nunca mais fiquei de cama. Ando léguas se for preciso ir atrás daquilo que me faz contente.

No final de semana passado fui de Serrambi à Toquinho pela praia. De vez em quando, um mergulho naquele mar absurdo de lindo para agradecer ao céu o desmantelo da natureza. Chapéu desabado sobre à cabeça, óculos escuros e muito protetor solar. Desse jeito fico de molho na água morna até os dedos das mãos enrugar. Pois é, até meados de dezembro sol, cerveja geladinha, peixe e camarão frescos comprados na porta. Daí em diante, frio, chocolate quente, pastéis de Belém, açordas, tostas e a deliciosa cozinha de Edson. Afora todos esses prazeres, em janeiro chegam Naide, Angela, Rafa e Mari pra gente bater pernas.Tejo abaixo Douro acima, até o carnaval chegar. Reclamar do quê? De nada. De absolutamente, nada.

Nessa pisada vou aos noventa, de dedos cruzados, aproveitando tudo. Seja inverno ou verão. Não é a toa que moro num edifício chamado Quatro Estações. Viva eu e viva tu e viva o rabo do tatu! 

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quem beija a boca dos meus a minha adoça



Tenho  intimidade com as pessoas da Aurora como se fossemos amigos. Elas me cumprimentam e quase sempre fazem comentários animadores sobre o meu estado físico. Comemoram comigo as batalhas ganhas contra o câncer desde que apareci com os meus turbantes por lá. Gente de verdade, vizinhos como antigamente. Eles me lembram os das Graças, aqueles do edifício perto do céu. De sexta-feira até domingo, fiquei na casa de Mana e Chico para participar dos preparativos do primeiro aniversário de José.

Eles são adeptos do “feito por mim”. Então, dá pra imaginar a trabalheira que foi aprontar a  festinha. Um capricho só. Tudo feito de tecido e papel. Nenhum balão de borracha. Nada de plástico, absolutamente nada. Coisa inusitada nos aniversários de hoje. Onde já se viu festa de criança sem balões coloridos? Eu nunca tinha visto, até então. Fiquei curiosa para ver no que ia dar a invenção.

A partir do convite feito por *Edson, eles criaram o cenário. Transformaram a Sala de Foto (um casarão de três andares na Rua da Aurora onde funcionam o estúdio de Chico e o atelier da Maria da Silva) num espaço sideral com jeito retrô. O bolo, um saturno laranja com imenso anel azul, pousou em uma mesa nua de laca amarela. Foguetinhos de papel eram caixinhas de doces. Uma cortina preta presa no "piso-teto", o espaço sideral. Sol, estrelas, planetas e naves espaciais, feitos à mão em tecido colorido, pendurados um a um, enfeitavam esse infinito imaginário. Tudo isso e um foguete-barraca de papelão, transformaram o estúdio de fotografia numa viagem a outra galáxia. Parecia coisa de teatro.

Brinquedos antigos de lata e madeira invadiram a estante do estar  compondo com a mesa de guloseimas uma loja de doces para a meninada jamais esquecer. Duas mesas imensas feitas com portas usadas, forradas com toalhas iguais a cortina do espaço da recreação, acomodavam os adultos. Até caixas de madeira colorida para servir de bandeja, eles inventaram. Foram noites e noites de preparação.

Tal e qual a canção infantil que fala de uma casa muito engraçada que não tinha teto não tinha nada, mas que era "feita  com muito esmero”, eles fizeram. Era eles trabalhando e eu cantando a tal canção lembrando de mim quando preparava as festinhas dos meninos.

Muito mais bonito do que todo esse cenário encantado, somente os amigos e seus filhotes. Sem eles nada disso teria sentido. Foi para eles que foi feita essa festa. Para juntos comemorarmos a alegria do primeiro aniversário de Dudé.

Admiro o jeito de Mana e Chico viverem a vida. Um parece o espelho do outro. Caprichosos, dedicados em tudo que fazem. A casa onde moram reflete o que são. Recolhem o que acham interessante por onde andam e transformam tudo em bom gosto. Colecionam cadeiras, cestaria, brinquedos populares e máquinas fotográficas. Tudo disposto de maneira pouco usual para encantar os olhos de quem lá chega. Uma coisa lúdica, sem dúvida. Afora a casa que por si só é um encanto, tem a magia do Capibaribe que dá nome ao rio que passa em frente à janela e ao edifício em que moram. Adoro!

Nesses momentos penso na mulher de sorte que sou. Além de ter podido preparar três criaturas, com amorosidade e responsabilidade social, para enfrentar o mundo tão desigual e injusto como o de hoje, ainda posso vê-los felizes com seus pares tão amorosos quanto. Sou coruja assumida e nunca neguei. Amo meus filhos e quem eles amam, também. Amo Manu e Edson, Mana e Chico, João e Rita. Do amor aos “porqueirinhas”nem é preciso falar, esse adoça o meu coração que de tanto amar, flutua.


Para José, com amor, no seu primeiro aniversário!


 Acima convite do aniversário.
Design: *Edson Rosas
Foto: Vovó Naire, do seu celular.
Importante: Se a foto fosse de Chico Barros, vocês poderiam ler o que está escrito no convite.  









segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Bailarina e o Poeta ou A História da Delicadeza



O Poço da Panela está embandeirado. É dia de festa. A bailarina e o poeta vão se casar. Ela traz um véu de tule na cabeça e um ramo de folhas de jasmim na mão. Ele pousa o olhar sobre ela, e disfarça a lágrima alisando a barba.  Aproximam-se do altar improvisado. Atrás, em mesas coloridas, dezenas de amigos. Há desconhecidos, uma igreja, um casario e crianças a testemunhar.


Sábado, ao cair da tarde, a festa alastrou a rua  e o pátio da igreja. Lanterninhas de papel pendem das árvores. Flores de crepom colorido embrulham doces e adornam o cenário. Na calçada da venda de Seu Vital, a mesa de dominó faz par com a do bolo confeitado. Lá dentro, um triângulo, uma sanfona e uma zabumba para lembrar o noivo. Lá fora, um violino flamenco para lembrar a noiva. Veio gente de todo lugar. De Brasília, da Aurora, da Beira Rio e até do Ceará.


O ambiente é a cara dos dois. Há pessoas a passar, a ver o que se passa. Não há idades, não há hora de chegada nem de saída. Não há pressa. Só alegria, muita alegria. "A noiva chegou”, ouve-se alguém dizer. A bailarina veio para substituir o sol que já se despede naquele fim de tarde.De quebra, trouxe a delicadeza e o brilho da primeira estrela para encantar.Viva a noiva.Viva! O poeta a espera com um sorriso largo, maior do que aquele que escancarava ao ver o Santinha arrasar. Viva o noivo.Viva!


No lugar há homens e mulheres a sorrir, de cerveja na mão, como se estivessem em casa, confortáveis, a ver um filme europeu. Aos seus pés, tropeçam crianças a brincar no meio de uma rua onde é suposto andarem carros. Mas são todos amigos e não fazem cerimônia. Riem, se abraçam e comemoram o amor do poeta pela bailarina e o da bailarina pelo poeta. Não importa nessa hora quem amou primeiro. 


Ao redor, há árvores que dão poemas em vez de frutos, há dois corações gigantes que é preciso admirar. Tudo na mesma rua. Ao fundo, o flamenco marca o ritmo de uma festa única. É a festa do amor do poeta pela bailarina ou da bailarina pelo poeta, tanto faz. Pois como dizia minha avó portuguesa, com seu sotaque carregado: "São duas almas num só corpo, pois!". Mais uma vez, vi o amor em carne e osso. Ele existe, eu sei. 


Para Silvinha e Sama, com o meu coração inventado!    

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Improviso



De tanto arrumar malas, comprar comida como se fosse estourar uma guerra, enfrentar engarrafamentos e voltar exausta estrada abaixo, fiquei traumatizada com feriadão. Nesses dias opto por ficar em casa. Compro coisinhas miúdas para saborear lendo ou vendo o que gosto. Completamente entregue ao doce far niente. Esses dias são ótimos na cidade. Não tem trânsito nem filas, tudo funciona perfeitamente. Quando a preguiça deixa vou ao cinema ou ao restaurante. Serrambi e Gravatá só para dias de paz.

Na sexta feira, encontrei alguns amigos no almoço. Animados anunciavam a programação do fim de semana prolongado. Nenhuma vontade de ir para onde eles iam. Casas de praia ou hotéis fervilhando de gente, nem pensar. Como diz uma amiga: me inclua fora dessa! Beijinho pra lá, beijinho pra cá, nos despedimos felizes por só voltarmos ao batente um dia depois do habitual. Nesse clima segui o destino da Cultura. Certa de que a partir do sábado eu estaria fechada para balanço, comprei livros, revistas e dois DVD. No caminho de casa completei o kit preguiça com umas coisinhas engordietes, indispensáveis nesses momentos de puro prazer.

Nada acertado para os dias que se seguem, dei graças aos céus por não ter sacolas para arrumar ao chegar em casa. Cumpri o ritual diário abrindo a porta da varanda para olhar o movimento das pessoas no passeio lá embaixo. O trânsito estava infernal e o passeio vazio. Mais uma vez, agradeci por estar em casa rodeada de tudo que gosto. Vixe! Deus me livre e guarde de enfrentar uma estrada agora, nem mesmo para ver Jesus Cristo dançando rock eu  sairia daqui. Nem morta "fia", disse a mim mesma. Banho tomado, vento batendo de leve nas plantas, sentei na cadeira preferida e... toca o celular. Do outro lado da linha, o convite para o dia seguinte:
-Naire, vamos à Maracaípe amanhã comer um peixinho?
-Menina, por Deus do céu não me “atente” não.
-Eu tenho certeza que vai ser bom e que a gente vai se distrair.

-Quem vai?
-Só nós três.
-A gente não vai sair daqui correndo como quem vai tirar a mãe da forca, por favor!
-Não, a gente vai na hora que acordar, lá pras sete meia, oito horas.
-Então eu vou.
-Ótimo, leve uma roupinha pra trocar se a gente quiser emendar por lá.
-Vamos no meu carro, quero ouvir Henry Salvador que acabei de encontrar entre os discos que Manoella deixou aqui, tá certo?
-Certissimo.
- Quem acordar primeiro liga.
-Beijo
-Beijo
Nessa altura dançou a jura que acabara de fazer olhando o rio prateado pela lua. Li ainda algumas páginas, comi umas passinhas ao rum e fui ao berço sonhar com os anjos.

Como sempre, acordei cedo. Para ser precisa, cinco e meia da madrugada. Este é o horário que o despertador imaginário me chama todas as manhãs. Idade, criatura! Depois de alguns carnavais não tem jeito. A gente cochila e também acorda cedo, uma tragédia grega. Para não dar tempo de desistir do passeio fui logo arrumar a mochila e botar água nas plantas. Tomei o café da manhã e liguei este danadinho para saber o que se passara no mundo enquanto eu dormia.

Li os jornais, chequei a caixa de email e fui direto chamar os “porqueirinhas” no Skype. Aquela confusão de sempre. Tom me mostra os desenhos, Felipa não quer deixar ele ficar na frente da câmera e Manoella diz a frase habitual: “Mamãe, tá vendo, estou morta de cansada. Esses meninos não me dão trégua”. Acalmei todos, comentei os desenhos com Tom e cantei “Borboletinha” com Fifi. Depois que eles resolveram dar a desejada trégua a sua mamãe, começou a conversa propriamente dita.

Adoro conversar com meus filhos. A gente vai longe no nosso dialeto. Dessa vez, ela me contou sobre Júlio Pomar, Saramago e Lobo Antunes. Falou sobre livros e do seu  encantamento com o último. E a prosa seguiu nesse rumo e nem senti a hora passar. Quando dei conta do combinado na véspera, fui correndo olhar o celular. Oito horas e quatro chamadas não atendidas. Misericórdia, me despedi de todos e fui correndo tomar uma ducha fria (banho frio de manhã cedo, acorda corpo e alma ao mesmo tempo).

Liguei para as meninas e apressei o passo. Sou rápida nessas horas, num minuto me apronto e num segundo já estou com a chave do carro na mão. Tudo pronto. Desço até à garagem para verificar as condições do carro. Chequei a gasolina e os pneus. Lembro que deixei o estepe no borracheiro. A sorte é que a borracharia  fica aqui bem perto e pelo tempo que deixei o pneu para consertar, não irá atrasar a nossa partida. Ligo o carro, aperto o play para Henry cantar bossa nova com sotaque francês e vou em busca do borracheiro.

Chegando lá, apressada, comunico que vim pegar o pneu. Para minha surpresa, o cidadão informa que demorei muito para apanhá-lo, assim, ele emprestou o bendito ao seu irmão que precisou viajar. Não acredito no que ouço. Na mesma hora, pensei na minha cadeira confortável, nos livros, nos DVD e no sossego do meu lar. Eu estava era doida quando resolvi combinar essa saída, valha-me Nossa Senhora Aparecida!

Segurando a língua para não soltar os cachorros em cima da criatura a minha frente, pensei duas vezes no que dizer e fazer. De repente, surge a brilhante idéia na cabeça dele. “Olhe, a senhora não vai perder seu feriado, de jeito nenhum. Vou pegar o pneu desse carro de Zé, meu amigo, pra botar no lugar do seu. Quando for terça-feira a gente “destroca” e fica tudo certo, ok?" Ok, respondi. Nessa altura do campeonato, fazer o quê?

Aceitei a troca e saí achando graça da situação. Infelizmente, essa é a realidade. De que iria adiantar dar um saraivada de palavras que ele sequer entende; uma lição de moral e não aceitar a oferenda? De nada, claro. Eu iria ficar mal humorada por desmanchar o combinado, deixaria as meninas chateadas por ter esperado em vão e voltar, contrariada, para casa era a última coisa que queria naquela hora. Enfim, só me restava rir da situação (ainda bem que não sou politicamente correta). Com o pneu errado no lugar certo segui o destino da praia. No caminho, o trânsito de sempre, a conversa sem fim e Henry cantando pra gente não ouvir.

Finalmente, Maracaípe. Cobertas dos pés à cabeça para o sol não queimar o pouquinho do esticado da pele que nos resta, sentamos embaixo da palhoça para degustar o tal peixinho com cervejinha gelada. O dia estava absurdo. No céu nenhuma nuvem, somente o azul e o colorido do nylon dos kitesurf. O mar escancarado escandalizava com suas ondas de espuma. Para completar o cenário, Adonis e Afrodite, namoravam a nossa frente. Até onde a vista alcançasse só se via beleza. Achando pouco, o acaso nos presenteou com um cielo e uma viola em plena areia ao meio dia.

A gente ficou muda e foi só ouvidos para o casal que dedilhava os instrumentos. Se eu não estivesse ali e as meninas me contassem isso, eu iria pensar que era mentira, que elas estavam inventando para me matar de arrependimento, juro! Mas... era tudo verdade.

Nessa altura, de queixo caído com a natureza e a música, nem notei quando me foi dado uma laranja  para perfumar as mãos. Isso mesmo, uma laranja para perfumar as mãos. Sozinho, em uma mesa ao lado da nossa, um homem com rosto marcado de sol, delicadamente me deu o fruto dizendo que era para amenizar o cheiro da Agulha que acabara de comer. Disse ainda, que a laranja veio do sítio do seu irmão, que fica em Camocim de São Félix. Não acreditei no que estava acontecendo. Nesse tempo de invisíveis esse gesto é pura ficção.

Enlevada com a delicadeza daquele momento lembrei do episódio do pneu. Do outro homem, que de um jeito diferente, para não dizer troncho, me proporcionou tudo o  que vivia naquela hora. Isso é brasileirismo, não tenho dúvida. Só a gente tem essa alma; só a gente sabe tirar partido do insperado; só a gente vê com outros olhos situações que em outro lugar daria cadeia, ou um grande desprazer. 

Amanhã vou “destrocar” o pneu e agradecer ao borracheiro por ter encontrado o homem da laranja, aquele que perfumou a minha mão de delicadeza.


Para Clarissa e Bruno, com alegria!

domingo, 4 de outubro de 2009

Língua Brasileira

 

Não sou mulher de igreja, tenho fé e isso basta.
Cheguei meio sem jeito, pois, confesso, não tenho intimidade com os novos ritos da celebração. Procurei um lugar próximo à porta para ir embora, sem constrangimento, caso não gostasse do que fora ver e ouvir. Tomei assento, como dizia meu avô, e passei a observar o entorno. Notei que não peguei o roteiro da celebração nem a folha de cânticos. Para não dar bandeira, fiquei na minha. Ser “Maria vai com as outras” nessas ocasiões é a saída. Assim, não tinha com o que me preocupar.

O coro começou a entoar a música de entrada e todo mundo cantou junto. Tentei espichar o pescoço para ler o papel da vizinha, mas foi em vão. Ela era bem mais alta do que eu e, entusiasmada, levantou ainda mais a tal folha me deixando de boca fechada. Afinal, tudo  estava começando. Quem sabe, não iria ser entoada alguma canção que eu soubesse cantar sem ser necessário ler a letra? Assim, ouvi tudo com paciência (o que não combina nem um pouco comigo). Terminada a cantoria, eis que surge Frei Aluízio.

Vi que já o conhecia de vista, de outras celebrações, acredito. Sem formalidade, cumprimentou a todos com delicado bom dia e anunciou que a missa seria em homenagem a São Francisco, pois hoje, 04 de outubro, é seu dia. Na mesma hora, pensei em Chico, com quem havia tomado café da manhã, depois de brincar com José. Deu uma vontade danada de ligar pra ele contando sobre a data. Lembrei que como no cinema, deveria desligar o celular. Catei o aparelho na bolsa e apertei a tecla do silêncio. Nessa altura, perdi a entrada da gaiola que estava pousada no altar. Não entendi nada. Como pode uma celebração em homenagem a uma criatura que amava os animais acima de tudo, ter um passarinho aprisionado como pano de fundo? Mas, como era novata, aguardei os acontecimentos.

A igreja foi tomada pelo som de passarinhos me transportando ao amanhecer na Beira Rio. Lindo! Após a sinfonia natural, o frei chamou a atenção para a presença do “irmão carneiro”. Espichei novamente o pescoço e vi o animal de lã, carne e osso, que amarrado ao pé do altar, sequer, soltava um bé. Depois vieram pela nave central um bode, uma cabra e um cachorro. Vixe! que danado é isso: é uma igreja ou a exposição de animais do Cordeiro? Pensei no ato.

Continuei quieta, só observando. Outro cântico. Abri a boca e cantei todinho. Dessa vez, lembrei da minha mãe. Nesse momento me arrepiei do pé à cabeça. Fui até à Igreja do Perpétuo do Socorro, onde, quando criança, ia com ela e meus irmãos, toda primeira sexta-feira do mês. Que saudade! A missa, essa que assistia (realmente eu era uma expectadora), continuou com todos os ritos. Chegou a hora do evangelho. Ansiosa, nem prestei muita atenção à “palavra”´, só queria mesmo saber o que o frei iria dizer. A sua fama de bom orador corre longe e foi para ouvi-lo que fui até lá.

Terminada a leitura da “palavra da salvação”, o grande momento. De início, o frei chamou alguém da platéia para abrir a gaiola e soltar a ave. Com essa simbologia, começou sua fala. Contou sobre lobos e homens. Sobre pássaros; sobre o sol; sobre árvores e rios. Falou sobre o Sertão, o bode e o jumento. Falou do amor que aprisiona. Simples, direto e doce. Sem rodeios, disse coisas lindas, aquelas que tocam coração e mente. Dessa vez, lembrei de Lula. De Luís Inácio Lula da Silva, o filho de D. Lindu, o nosso presidente.

Sexta-feira, o vi na TV. No meio de tanta gente importante, de tanta gente cheia de títulos e honrarias, das câmeras do mundo todo, ele, Lula, beijou no rosto seus companheiros brasileiros, contente que nem criança. Sem falar inglês nem francês, sem entender de protocolo, de etiqueta, sem ter anel de doutor e até um dedo, disse a que veio. Chorou como qualquer mortal chora quando está alegre ou triste. Puxou do bolso um lenço de pano enorme, abriu-o. Sem cerimônia, fez igual a todos os homens simples da nossa terra, enxugou as lágrimas, a cabeça, as orelhas e o nariz. Tal e qual ao frei, quando trouxe à igreja animais para falar de homens e do amor que aprisiona, esse gesto deixou claro aos incompetentes, aos invejosos e a todos  de “gosto ruim”, que preconceito, também  aprisiona. Domingo que vem, vou lá de novo.

Para Régia, que fala a mesma língua!